sexta-feira, 13 de junho de 2014

 
 
 
Fiz como “prefácio literário” de um texto sério que virá aqui sobre os últimos acontecimentos no aglomerado da Serra. Fiz sobre que um menino que conheci que vivia lá. O que me lembro daquele menino…

Era um ar que se respirava, algo como um suspiro, que o fazia derrapar. Entre as ladeiras, os pés tão cansados como tudo que se cansa na vida e um momento de sossego. Pouco se entendia, quando o mundo assim como que se deslizava nos morros em que vivia. E passava por seu corpo, sua febre e os momentos de dor. Como fazer caber. Fazer ceder. Cedia-se demais e, por isso, mais dor e menos amor. E as palavras mal saiam em frases atravessadas por tiros e silêncio. Instalava-se um diálogo onde menos se esperava, que viessem assim com metralhadoras onde, para ele, residia uma flor. Mal entendia. E muito sabia. E sabia tanto que muito mais que qualquer outro que o escutasse. Sempre o sabem mais, as crianças, mesmo que vivam como ele, entendendo a justiça às avessas. Que viessem assim, displicentes, como se a vida não passasse de mais uma folha do obituário. Ele se negaria. Disporia da sua, a faria onde para ele residia o amor e não mais a dor. Conversa de polícia onde não se mete ninguém e os deixaria assim, em seu amor infantil, pela vida mesmo que fosse assim uma corrida contra o tempo. Curto para ele se assim acreditasse. Anos mais tarde, acreditaria que curta era a vida para os que muito desejam. Um sonho. Que tudo se fosse e nunca mais voltasse. E o mundo que para ele era a escola e o trabalho, interditados assim: a justiça às avessas. O aviso de que hoje não tem aula, as notícias do bairro, a cegueira da gente. E que tenha aprendido os caminhos tortuosos muito cedo e o pés cansados muito cedo e o relógio a despertar muito cedo. Muito cedo e um sonho. Que viessem metralhadoras quando ele se armava de flores. E, uma a uma, as colocava como um escudo em que nada pudesse penetrar de ruim em seu corpo que fibrilava de dor. Sem sugestões de ortografia, o vocabulário era curto como o tempo se assim acreditasse. E o menino, aquele, sabia mais de lustrar sapatos do que qualquer um que o escutasse. E sabia das flores e as palavras, mal ditas no silêncio que as precede.Era como um ar que se respirava, algo como um suspiro que o fazia deslizar nos morros em que vivia: uma justiça às avessas. E que ele também não fosse junto, um desejo e um sonho. Não ser ferido. Que viessem com metralhadoras, ele já havia se armado de palavras e as despejaria assim, pouco a pouco, como flores caídas no outono das árvores. Palavras malditas as que escutava: a justiça às avessas. Elas que fizeram as deles: mal ditas sem sugestões de ortografia. E a frase que mal saía escolhia a briga e não a paz. Malditos, que venham com metralhadoras. Ele, de relance, as via como quem faz um desdém da vida. Ele já havia se armado, pouco a pouco, a frase que mal saía e as palavras que viriam o proteger como um escuto. Ele já se armara e amara: elas, as palavras malditas. Que seja tudo um mal entendido, caso a se abafar: justiça às avessas. Não se atreveria a tanto se fosse um adulto. Criança que era sabia que o mundo era um lugar muito obscuro e não havia maneiras de se viver sem ser vivendo, mesmo que o corpo se convulsionasse e o Atlético perdesse. Que venham eles com a justiça às avessas. Ele podia a desentortar como bem quisesse, o mundo era dele. Era algo como um suspiro. Que venham com os metralhas, justiça. Conversa de polícia onde não se mete criança. Ele já estava armado de flores e palavras. Matriculado, armado e escrito. Que se derrame uma a uma como só uma criança pode fazer. A corrupção que o confundia mas não o deixaria do avesso. Ele já estava armado.
 
 

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