segunda-feira, 15 de setembro de 2014



o mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta. 

E, no planeta, um jardim, 
e, no jardim, um canteiro; 
no canteiro uma violeta, 
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim, 
a asa de uma borboleta.

(Cecília Meireles)

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SAIO DO SONHO, DA NOITE, DO ABSURDO

Saio do sonho, da noite, do absurdo:
sou navegante que aborda o limite humano,
espuma breve.

Meus vestidos são de uma tristeza total:
da frágil superfície ao denso forro,
profundo mar.

Pergunto-me por que venho
e por que venho assim vestida:
- é dos lugares do sonho, da noite, do absurdo?
- é do limite humano a que abordo,
séria e inerme?

Entre os dias humanos
e a noite ex-humana
que mensageiro acaso somos?

A que destinatários?
em que linguagem?
que mensagem? 
Ó noite, ó sonhos,ó absurdo
onde, no entanto, fluíamos, claríssimos!

Cecília Meireles
In: Poesia Completa

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As Meninas.

Arabela
abria a janela.

Carolina
erguia a cortina.

E Maria
olhava e sorria:
“Bom dia!”

Arabela
foi sempre a mais bela.

Carolina,
a mais sábia menina.

E Maria
apenas sorria:
“Bom dia!”

Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina.
. 
Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:

"Bom dia!”

Cecília Meireles,
in Ou isto ou aquilo

 

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