segunda-feira, 15 de setembro de 2014


Foto: CANÇÃO QUASE TRISTE

Brilhou a rosa
No espinhoso galho.
Quem viu? Ninguém.

Nuvens muito altas
Lágrimas de orvalho
Deram-lhe: - de além.

Seca os teus olhos,
No amargo trabalho,
Que a noite já vem.

Vê-te a ti mesmo,
Sê teu agasalho,
Pobre Pero Sem.

Cecília Meireles
In Retrato Natural


Romance XXV ou do aviso anônimo 


Veio uma carta de longe, 
não se sabe de que mão. 
Atravessou esses campos, 
caiu como flor ao vento 
sobre a Vila de São João. 

Correi, senhores da terra, 
Ouvidor e Coronéis, 
enterrai vossas riquezas, 
mandai para longe os trastes, 
escondei vossos papéis. 

Veio uma carta de longe. 
Aproximai-vos e ouvi: 
fala de rios propínquos, 
rios de lágrima e sangue 
que vão correr por aqui. 

Parte, cabra, vai-te embora, 
vai levar a teu patrão 
as notícias que chegaram 
sobre a desgraça que cerca 
este povo de São João. 

Veio uma carta de longe. 
O que dizia, não sei. 
há calúnias, há suspeitas.. 
(Vede as janelas fechadas!. 
Confabulam! Querem Rei!) 

Escondei jóias e alfaias! 
(Que tropa é que vai chegar?)
Parece que vão ser presos 
os grandes, os poderosos, 
os donos deste lugar. 

Veio uma carta de longe. 
Abriu-se muito colchão, 
queimou-se o que estava escrito, 
escreveu-se o que era falso, 
nesta Vila de São João. 

E o Lenheiro vai correndo 
como fita de cristal 
sobre as pedras, sob as pontes, 
entre o rumor e o silêncio 
do sobressalto geral. 

Veio uma carta de longe. 
- Fortes ecos tem a dor! 
que os escravos já souberam, 
no fundo de suas brenhas 
desse aviso de terror... 

Mas os meninos risonhos 
pelas varandas estão 
- quase órfãos! - mirando as nuvens, 
como os belos anjos de ouro 
das igrejas de São João. 

Cecilia Meirelles..

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