segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Foto: PEDIDO

Armem rede entre as estrelas,
para um descanso secular!
Os conhecidos – esquecê-los.
E os outros, sem imaginar.
Armem a rede!

Chamem o vento, um grande vento
aéreo leão, para amarrar
sua juba de esquecimento
a esta rede, entre Deus e o mar.
Chamem o vento!

Não falem nunca mais daquela
que oscila, invisível, pelo ar.
Não digam se foi triste ou bela
sua vocação de cantar!
Não falem nela.

Cecília Meireles
in Mar Absoluto
''CANÇÃO''

Não te fies do tempo nem da eternidade
Que as nuvens me puxam pelos vestidos,
Que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
Que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
Nácar de silêncio que o mar comprime,
Ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
Que amanhã morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
A anêmona aberta na tua face
E em redor dos muros o vento inimigo ...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
Que amanhã morro e não te digo ...

Cecília Meireles
In Retrato Natural

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