segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Foto: ''CANÇÃO''

Não te fies do tempo nem da eternidade
Que as nuvens me puxam pelos vestidos,
Que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
Que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
Nácar de silêncio que o mar comprime,
Ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
Que amanhã morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
A anêmona aberta na tua face
E em redor dos muros o vento inimigo ...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
Que amanhã morro e não te digo ...

Cecília Meireles
In Retrato Natural
Fala Inicial:

Aqui, além, pelo mundo,
ossos, nomes, letras, poeira…
Onde, os rostos? onde, as almas?
Nem os herdeiros recordam
rastro nenhum pelo chão.

Ó grandes muros sem eco,
presídios de sal e treva
onde os homens padeceram
sua vasta solidão…

Não choraremos o que houve,
nem os que chorar queremos:
contra rocas de ignorância
rebenta nossa aflição.

Choraremos esse mistério,
esse esquema sobre-humano,
a força, o jogo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e de exaltação.

Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão!

Cecilia Meireles

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